Parques Nacionais e Ecoturismo; Pensando a Educação Ambiental no Parque Nacional da Tijuca: Uma Proposta.
Arquivado em: Anais do VII Encontro de EA do RJ
O presente trabalho, pretende contribuir para a compreensão do papel do Programa de Educação Ambiental do Parque Nacional da Tijuca, como veículo essencial ao processo de mudança de mentalidade, em associação ao desenvolvimento do ecoturismo e à conservação de parques nacionais. São objetivos do projeto de pesquisa: identificar o perfil do visitante do Parque Nacional da Ti juca; buscar uma melhor compreensão e interpretação das motivações e expectativas, que levam os indivíduos à privilegiarem a escolha de um ambiente natural como elemento central de lazer em detrimento de outras atividades ; identificar qual o entendimento que os visitantes do parque possuem em relação à unidades de conservação; buscar compreender e analisar a dinâmica do Programa de Educação Ambiental em implementação no Parque Nacional da Tijuca em relação às demandas para o ecoturismo; bem como, apoiar o estabelecimento de um sistema de indicadores e uma metodologia permanente de avaliação, objetivando o desenho de programas de avaliação sistemática de iniciativas de educação ambiental em parques nacionais. A metodologia utilizada constará de uma fase inicial de coleta de dados, a partir de pesquisa documental. A pesquisa de campo será dirigida a dois públicos distintos: os “stakeholders” diretamente envolvidos com a gestão do parque e os turistas que o visitam.
Introdução
A atual pesquisa, visando a obtenção do título de Mestre em Psicossociologia do Programa EICOS (Estudos Interdisciplinar de Comunidades e Ecologia Social) do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pretende contribuir para a avaliação do Programa de Educação Ambiental do Parque Nacional da Tijuca como elemento central do processo de mudança de mentalidade dos turistas e visitantes que privilegiam essa unidade de conservação como área de lazer.
O Parque Nacional da Tijuca, foi criado em 6 de julho de 1961, pelo Decreto Federal nº 50.925 como Parque Nacional do Rio de Janeiro; sendo, pelo Decreto Federal nº 60.183 em 8 de fevereiro de 1967 alterado para Parque Nacional da Tijuca.
A escolha como Estudo de Caso, se justifica, na medida em que o Parque Nacional da Tijuca exerce papel relevante no cenário turístico, nas atividades lúdicas, e em programas de educação ambiental no Estado do Rio de Janeiro, representando a maior floresta urbana do mundo, sendo o seu processo de reflorestamento considerado pioneiro na América do Sul.
Paradoxalmente, é o 2º menor Parque Nacional do país, uma área de 3300 ha, e o maior parque urbano de mata tropical. O Parque Nacional da Tijuca é constituído por Floresta Atlântica densa, onde estão catalogados 900 (novecentos) espécies diferentes de plantas e 230 (duzentos e trinta) animais e aves, (Guia Philips - Parques Nacionais:1999)
O relevo é acidentado abrangendo os conjuntos Pedra Bonita, Pedra da Gávea, Ser ra da Carioca e Corcovado, Sumaré e Gávea Pequena. Seu uso para fins lúdicos/educacionais e turísticos, é facilitado pelas sete vias de acesso que o circunda.
O Parque Nacional da Tijuca, situado no centro da cidade do Rio de Janeiro, está, qualificado como unidade de proteção integral, segundo a lei 9.985/2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, sendo permitido nessa categor ia, o uso indireto dos recursos naturais, com possibilidades para a atividade educacionais, de recreação e lazer.
Os espaços naturais preservados, como o Parque Nacional da Tijuca, vêm sendo buscado pelos indivíduos da sociedade contemporânea para as atividades lúdicas e ecoturísticas em contraposição à vida urbana.
A rápida urbanização, conseqüência da revolução industrial e do êxodo rural, gerou o crescimento desordenado das metrópoles brasileiras. Houve a descaracter ização do patrimônio natural urbano; as cidades se verticalizaram, o espaço urbano se tornou um “bem econômico” e a natureza, patrimônio “sem valor”.
Milton Santos (1986) em Pensando o Espaço do Homem, considera o período tecnológico, marca decisiva da sociedade atual, onde o consumo e o setor terciár io ganham um papel significativo nas relações humanas; a técnica subverte todas as relações homem- natureza; homem – objeto; homem - homem.
O desenvolvimento tecnológico , possibil itou um aumento no capital e a redução das horas de trabalho, o que gerou um acréscimo significativo no tempo livre. Por outro lado, a massificação dos lugares, a padronização dos modos de vida, o “consumo frenético” e inúmeras possibilidades rentáveis de entretenimento, inspiraram uma grande reflexão para os teóricos contemporâneos, quanto às atividades desenvolvidas durante o tempo livre dos indivíduos. Assim algumas questões emergem com relação ao lazer: quais as formas de utilização desse novo tempo? Seria esse tempo utilizado para o florescimento ou para a degradação da personalidade humana ?
Segundo FRÖMM, em Psicanálise da Sociedade Contemporânea, citado por MARCELLINO (1983:p.26):
“.. .Reduzimos a média de horas de t rabalho à metade de seu total de há cem anos. Temos hoje mais “Tempo Livre” que os nossos ancest rais poder iam sequer sonhar. Mas que aconteceu ? Não sabemos usar o “Tempo Livre” tentamos matar o tempo que economizamos ao t rabalho e f icamos contentes quando termina mais um dia “
A sociedade voltada para o desfrute do tempo livre e lazer é v ista por BUTLER (1959), como um paradoxo, quando os indivíduos não sabem usufruir deste “bem”. Para ele, os elementos naturais, constituem a pr incipal fonte para uma atitude propícia à vida.
A necessidade vivenciada na sociedade atual, da busca da natureza nos momentos de tempo l ivre e lazer, como fonte de revigoramento e vida está marcada, sobretudo, do ponto de vista sócioambiental pela conscientização dos grupos humanos sobre os impactos ambientais globais, pelos desmatamentos, pelas mudanças climáticas, pela desertificação, pela perda gradual da biodiversidade como patrimônio, entre outros enfoques.
Como resultante dessas questões emerge no cenário contemporâneo uma grande preocupação ambiental, que se reflete na implementação de políticas de educação ambiental, tentativas de preservação de áreas naturais consideradas relevantes do ponto de vista da biodiversidade, revalorização do patrimônio natural, e a busca incessante por espaços naturais mitificados, em sua maioria pelas sociedades urbanas, como “paraísos perdidos”.
Uma das al ternativas encontradas pela sociedade como um todo e pelas diversas instituições de âmbito público e privado têm sido buscar garantir a preservação e/ou a conservação dos espaços naturais através da criação de Unidades de Conservação e a utilização dessas para o ecoturismo.
Para IRVING (2000), a criação das Unidades de Conservação, especificamente , dos Parque Nacionais abertos à visitação, reflete a escassez e diminuição dos espaços e disponibilidade dos recursos naturais, o que tem gerado discussões mundiais a respeito do assunto, bem como iniciativas de ONGs, instituições de ensino, empresas privadas, instituições governamentais , no sentido de se preservar o “bem” natural, além de possibilitar um reencontro do homem com o ambiente natural em seu “estado original”. Segundo a autora, IRVING (2000:p.11-37)
“O impacto antrópico sobre as áreas naturais preservadas, ou em estado de conservação, tende a ser crescente e marcante nos próximos anos, não apenas pela competição em relação à base de recursos naturais, o que reflete naturalmente o conflito de interesses de uso do solo, mas também pelo seu valor simbólico com relação ao resgate da natureza e de valores essenciais pelas sociedades urbanas, com conseqüências diretas na utilização de tal patrimônio para fins de recreação e lazer .”
A definição util izada para Unidade de Conservação (UC.), foi estabelecida pela Lei nº 9.985/2000, como:
“Espaço ter ritorial e seus recursos ambientais, incluindo águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente insti tuído pelo Poder Público, com objetivo de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção”
Segundo a IUCN (1991), área protegida corresponde a
“… uma área dedicada primar iamente à proteção e usufruto do patrimônio natural ou cultural, ou manutenção da biodiversidade e/ou serviços de apoio à manutenção da vida ecológica”.
Deve-se ressaltar que os critérios e formas aplicados pela Legislação Ambiental, na criação das unidades de conservação, tem sido questionado por sócio - ambiental istas, organizações ligadas ao meioambiente e insti tuições diversas, em todo o mundo, principalmente em países em desenvolvimento. Entretanto, o lazer praticado em parques nacionais, teoricamente, vinculado às atividades de ecoturismo e, compatível à preservação da natureza, propicia o desenvolvimento da educação ambiental como possibilidade de desenvolvimento pessoal, facili tado pelo processo de identificação com a base de recursos naturais que a atividade propicia através do lúdico.
Neste sentido, a relação entre as atividades lúdicas praticadas em parques nacionais, deveria, em tese, estar vinculada ao compromisso de sustentabilidade.
O conceito de “Desenvolvimento Sustentável”, apresentado pelo relatório final da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1986), explicita a necessidade no século XX de um novo paradigma de comportamento. Compreende “desenvolvimento” como: progresso econômico, social e ambiental valorizando e preservando os recursos naturais, garantindo-os às gerações futuras.
Segundo, as Diretrizes para uma Política de Ecoturismo, EMBRATUR/IBAMA (1994), ecoturismo é conceituado como:
” …Um segmento da atividade turística que uti liza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvidas” .
As Diretrizes para uma Política de Ecoturismo EMBRATUR/IBAMA, op.cit. identificam os seguintes objetivos para o desenvolvimento do ecoturismo :
- Compatibilizar as atividades de ecoturismo com a conservação de áreas naturais;
- Fortalecer a cooperação interinstitucional;
- Possibilitar a participação efetiva de todos os segmentos atuantes no setor;
- Promover e estimular a capacitação de recursos humanos para o ecoturismo;
- Promover, incentivar e estimular a criação e melhoria da infraestrutura para a atividade de ecoturismo;
- Promover o aproveitamento do ecoturismo como veículo de educação ambiental.
Segundo, AZEVEDO(2002), o tema, Educação Ambiental, vêm sendo discutido há mais de 40 anos, desde a Primavera Silenciosa – CARLSON(1962); e uma série de iniciativas de abrangência global voltadas à esta reflexão; como: Conferências de Keele, Grã Bretanha 1965; Estocolmo, 1972; Belgrado,1975; Tblisi 1977; Costa Rica, 1979; Declaração de Caracas 1988; e a Agenda 21 (durante a Rio 92) que representa um marco na perspectiva de mudança de paradigma da sociedade contemporânea com relação ao compromisso de conservação da base de recursos naturais.
Neste contexto, a Política Nacional de Educação Ambiental, Lei n° 9795/99, dispõe em seu Artigo 1º que:
“Entendem-se por, educação ambiental, os processos por meio dos quais os indivíduo e a coletividade contrai valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial a sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade.”
Assim, a educação ambiental, permite uma melhor aquisição de informações de novos conhecimentos e transformações de atitudes positivas em relação ao meio natural, a partir de uma visão integrada entre o seu humano e o ambiente em que vive.
Metodologia
A metodologia para o projeto será desenvolvida em duas etapas.
A primeira etapa, constará de uma fase de coleta de dados, a partir de pesquisa documental e diagnóstico preliminar de campo, no qual serão delineados os instrumentos.
A segunda etapa envolverá a pesquisa de campo, dirigida a dois públicos distintos, vinculados aos “stakeholders” diretamente envolvidos com a gestão do parque e os turistas que o visitam.
Os instrumentos de coleta de dados direcionado aos “stakeholders”, serão realizados através de entrevistas, objetivando com base na pesquisa documental e nos resultados das entrevistas, uma melhor compreensão da dinâmica do Programa de Educação Ambiental em implementação no Parque Nacional da Tijuca.
Os instrumentos de coleta de dados direcionados aos turistas, serão realizado através da combinação dos questionários e observação participante. Os questionários, deverão atender o objetivo de traçar o perfil do turista, bem como identificar qual o entendimento que os visitantes possuem em relação às unidades de conservação.
Pretende-se com a observação participante, gerar elementos que possam contribuir para a compreensão e interpretação das motivações e expectativas, que levem os indivíduos à privilegiarem a escolha do ambiente natural em detrimento de outras atividades de lazer.
Estas fases, deverão estar concluídas até 30 de abril de 2004. Iniciando-se, assim, a fase de análise e discussão dos resultados.
Resultados Esperados
Espera-se na conclusão do projeto de dissertação de mestrado, gerar subsídios e contribuições para o desenho de programas de educação ambiental e avaliação sistemática de iniciativas de educação ambiental em parques nacionais.
Bibliografia Citada
BRASIL. Lei n. 9.985, que regulamenta o art.225, § 1º, incisos I,II,III e VII da Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza e dá outras providências. Brasíl ia 2000.
BUTLER, George D. Recreação. Rio de Janeiro – RJ : Lidador LTDA,1973. Traduzido de: ” Introduction to Communi ty Recreation” Tradução de Helena Besserman Viana, Vera Neves Pedroso. National Recreation Association ,INC. ed 1959,1967
DIAS, Genebaldo Freire. Educação Ambiental: Princípios e Prát icas. 6ªed. São Paulo- SP: GAIA, 2000. p.551
IRVING, M de A. “Educação Ambiental como Premissa ao Desenvolv imento do Ecoturismo.” In:VASCONCELOS, F. P. (Org). Tur ismo e Meio Ambiente. For taleza: UECE, 1998. v.3, p.295-302
___________________”Ecotur ismo em Áreas Protegidas : Um desafio no Contexto Brasi leiro.” Bolet im de Turismo e Administ ração Hoteleira UNIBERO – Centro Universitário Ibero Amer icano, São Paulo, v.9, n.2, p.11-37, outubro de 2000.
________________.AZEVEDO, Júlia. Tur ismo o Desafio da Sustentabilidade . São Paulo-SP: Futura,2002
IUCN. Parks. Suíça:IUCN, v.2, n.3,1991
MARCELLINO, Nélson Carvalho. Lazer e Humanização. Campinas-SP: Papirus,1983
Nosso Futuro Comum/Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolv imento. – 2ªed – Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúl io Vargas, 1991.
Parques Nacionais Brasil : Guia PHILIPS. São Paulo- SP: Empresa das Ar tes Projetos e Edições Ar tísticas LTDA, 1999
SANTOS, Mil ton. Pensando o Espaço do Homem. 2ªed.São Paulo-SP :Hucitec,1986 p.64
Sites : Tur ismo Verde - Diretr izes para uma Política Nacional de Ecotur ismo. (Disponível em: www.mma.gov.br.)
Autoras:
Kar la Cel ina Almeida Pereira
(Av. Marechal Rondon, 463/302 São Francisco Xavier cep. 20950-000. RJ -RJ)
e
Marta de Azevedo Irving
Anais do VII Encontro de Educação Ambiental do Estado do Rio de Janeiro
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 23-25 de setembro de 2004
pp. 283 - 293
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