Muda o Mundo Raimundo! Um projeto capaz de promover mudanças na escola e na comunidade
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Os projetos de educação ambiental (EA) geralmente reduzem a proposta pedagógica à mera transmissão de conteúdos sobre meio ambiente e conservação dos recursos naturais, privilegiando a visão fragmentada do mundo. Levando-se em conta a situação das escolas públicas, dos educadores e alunos, a pesquisa partiu dos conceitos de educação e sustentabilidade e como estes se complementam em processos de formação de professores, no caso, o Projeto de Educação Ambiental no Ensino Básico do Brasil, Muda o Mundo, Raimundo! (Projeto Raimundo). As diversas experiências desenvolvidas nas escolas permitem verificar se os princípios norteadores do Projeto possibilitam desencadear processos de transformação social. Desse modo, demonstra-se que a relação educação–escola–comunidade constitui-se em elemento de um processo educativo ético-político. Isso reforça a necessidade de se levar em conta a proposta pedagógica crítica da realidade e de construção individual e coletiva de conhecimento, na perspectiva do exercício de cidadania para alcançar mudanças sociais.
OBJETIVOS
- verificar se existem projetos de Educação Ambiental que promovam a transformação social;
- demonstrar que a relação educação-escola-comunidade é elemento do processo educativo e de mudança;
- pesquisar as mudanças que um projeto de Educação Ambiental pode alcançar objetivando a sustentabilidade.
INTRODUÇÃO
A construção do conhecimento sobre o ambiente modifica-se diante da evidencia da complexidade das questões socioambientais. A implicação do desenvolvimento no plano socioeconômico divide claramente o planeta em países ricos e pobres e estampa a necessidade das ciências sociais dirigirem sua atenção para a justiça e a transformação social.
A maioria dos documentos oficiais enfatiza a relevância da educação para promover uma mudança nos modos de vida ser humano/natureza. Embora pertinente, a proposta da educação “ambiental” vem sendo constantemente questionada dentro do pensamento ambientalista, para que não seja apenas uma questão de “verdejar” a educação. O que ocorre, principalmente, nos sistemas formais de ensino onde ela é dirigida à conservação dos recursos naturais, em especial através das disciplinas de biologia, de ciências ou de ecologia, quase sempre, fundamentada numa pedagogia tecnicista e dominante.
A EA nesse caso é utilizada como questão de poder, apontada por BRÜGGER (1994:15) como sendo mais um “adestramento, uma instrução de caráter essencialmente técnico, fruto de uma visão de mundo cientificista e unidimensional”. Nesse sentido, predominam as tendências pedagógicas conservadoras, como a já conhecida “transmissão” de conteúdos que vêm prontos, onde o ensino tem por base a relação professor (saber) – aluno (depósito de saber).
No meio acadêmico (BRÜGGER/1994, REIGOTA/1999, CASTRO, LAYRARGUES e LOUREIRO/2000) a EA tem sido debatida – e proposta – com uma abordagem mais ampla e radical, voltada para a reflexão crítica sobre a educação tradicional, sobre o contexto histórico-cultural em que se encontra a sociedade contemporânea e o seu caráter ético-político. Envolve mudanças na proposta pedagógica do cotidiano das escolas, o exercício da interdisciplinaridade no processo educativo a partir da abordagem multidisciplinar do meio ambiente, a abertura nas relações escola/comunidade, a
participação cidadã na resolução dos problemas socioambientais locais.
A sustentabilidade estabeleceu-se, há pouco tempo, como um novo conceito chave do discurso ambiental. Originada das expressões ecodesenvolvimento, de Ignacy Sachs, em 1972, e desenvolvimento sustentável ou durável, proposta pelos ingleses, como “estratégias ambientalmente viáveis para promover um desenvolvimento socioeconômico eqüitativo” (SACHS 1993:12); ambas têm sido utilizadas como sinônimo por SACHS (Ibid.:12) e BECKER et allii (1997:12). O conceito vem sendo questionado porque, para esses autores, implica em uma perspectiva essencialmente social, indo além do desenvolvimento científico e tecnológico e exige, portanto, o aprofundamento de sua proposta, principalmente na inter-relação que deve ter com as ciências sociais. No estudo especifico com a educação.
A escolha do Projeto Raimundo, uma experiência nacional desenvolvida pelo extinto Instituto Brasil de Educação Ambiental-Movimento Raimundo (Instituto Brasil), ong, sem fins lucrativos, parte desses pressupostos e do fato da escola pública ser um dos campos mais férteis de implementação da EA. O Projeto Raimundo teve por objetivo integrar a EA às práticas cotidianas dos profissionais das escolas públicas brasileiras, por meio de um processo de formação em EA e do desenvolvimento de projetos locais (IBEA/PDI,1998).
METODOLOGIA
A pesquisa de abordagem qualitativa buscou compreender a proposta de educação vista como processo de mudança social e não simplesmente como adaptadora do indivíduo à sociedade. Fundamentou-se na sociologia da educação, por meio do estudo das diferentes correntes pedagógicas desenvolvidas no contexto histórico da sociedade industrial-capitalista. Dentre as tendências pedagógicas existentes, a pedagogia crítica de FREIRE (1977) tem subsidiado as propostas mais abrangentes da EA, vistas como processo, em permanente modificação, onde os indivíduos e a coletividade constroem o conhecimento ao assumir a consciência de seu papel enquanto atores que fazem sua própria história e cultura, e atuam sobre os aspectos socioambientais da realidade onde vivem.
O conceito de sustentabilidade é aprofundado por BECKER et allii (1997) que propõem a busca da identificação dos estados de não-sustentabilidade como caminhos para a construção do que hoje pretendemos como sociedade sustentável. Sugerem a verificação das mudanças, utilizando-se para a análise da sustentabilidade as seguintes dimensões dos processos sociais básicos: a analítica, a normativa e a estratégica ou política. As metodologias participativas vêm sendo utilizadas na prática da EA, especialmente na América Latina. (KLAUSMEYER & RAMALHO/1995; MACIEL/1999; THIOLLENT/1998). Do mesmo modo, o desenvolvimento local (MACIEL/2000, TEISSERENC/1994) visto como estratégia de ação que se insere na complementaridade entre educação e sustentabilidade.
A pesquisa envolveu o estudo das experiências regionais do Projeto Raimundo, contando com os depoimentos dos técnicos do Instituto Brasil, de professores, gestores e lideranças, formados em EA e com parte do acervo (hoje no WWF/BR) de documentos, relatórios técnicos, vídeos e informativos “Rodamundo” do Instituto. Os locais de interesse foram escolas públicas e comunidades/municípios de diversos Estados brasileiros. Foram utilizadas para o estudo das experiências regionais do Projeto Raimundo, as seguintes categorias, que operam nas dimensões citadas de sustentabilidade: de processo, de organização e de melhoria da qualidade de vida e transformação social. O período abordado vai desde a criação do Projeto Raimundo, em 1995, até o ano de 2000.
RESULTADOS e DISCUSSÃO
O Projeto Raimundo funcionou ao todo, por cinco anos. Os dois primeiros(1995/97) no WWF/BR, instituição de origem do Projeto, e os três últimos (1998/99/2000), no Instituto Brasil de EA-Movimento Raimundo. A riqueza de experiências acumuladas nos mais diversos campos fornece base para análises e pesquisas, uma vez que o Projeto, inicialmente previsto para professores da rede pública, envolveu outros segmentos da população, como estudantes universitários, comunidades rurais assentadas, técnicos de secretarias estaduais, municipais e de ONGs, além de lideranças comunitárias. Ampliou-se de tal modo que gerou um movimento, organizado pelos participantes (Movimento Raimundo) e uma instituição independente visando garantir sua continuidade (Instituto Brasil já citado). (IBEA/PDI, 1998) Através da experiência prática foi feita uma análise da situação do Projeto Raimundo como proposta educativa para a mudança social, segundo seus princípios e as dimensões de sustentabilidade, sugeridas por Becker et allii (1997) que visam a
compreensão desse conceito, como uma proposta interdisciplinar de transformação social. Essas dimensões são assim caracterizadas para facilitar a exposição, na prática elas ocorrem ou não em interação e simultaneamente. No quadro síntese, em anexo, a análise do Projeto Raimundo segundo a proposta de BECKER et allii (apud ARRUDA, 2001).
As Experiências do Projeto Raimundo
O Projeto desde a sua criação ampliou as atividades abrangendo as seguintes áreas geográficas, conforme definição do IBGE: Sudeste (Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo), Nordeste (Estados do Maranhão e Pernambuco), Centro-Oeste (Distrito Federal e Goiás), Norte (Rondônia) e Sul (Paraná). (IBEA/PDI, 1998). Sua atividade básica foi a realização de cursos de formação, utilizando o livro-texto Muda o Mundo, Raimundo!, que contém referencial teórico e metodológico da EA, para sensibilizar e fomentar a reflexão sobre os conceitos, estimular debates, a construção de novos conhecimentos e de projetos locais. O livro apresenta ainda experiências escolares e comunitárias, nacionais e internacionais e propõe metodologia participativa, fundamentada em Paulo Freire (1977). Como resultado dessa síntese “Raimundo-Freireana” (IBEA,1999) em cada região, o trabalho foi definido ao estabelecer-se o processo educativo, que perpassava todas as etapas, desde o planejamento, formação, monitoramento e avaliação das ações locais, com a participação de todos os envolvidos, os técnicos do Instituto Brasil e os representantes das instituições parceiras (universidades, ONGs, prefeituras, escolas e comunidades). Portanto, a execução do Projeto, constituiu-se, por si, num processo educativo ético-político que envolve a todos
em contatos, negociações, viabilização de recursos, organização, criatividade, conflito, consenso, tomada de decisão e perseverança, dentre outras questões. Essa prática permite a observação dos princípios do Projeto e das especificidades das instituições participantes e da região. Para ilustrar, apresenta-se um resumo dos estudos feitos com trechos de depoimentos sobre as experiências e alguns dos resultados conseguidos, nas diversas regiões:
Minas Gerais
A parceria e o convênio firmado entre o Instituto Brasil, a Pró-Reitoria de Extensão, o Departamento de Educação da Universidade Federal de Lavras-UFLA e a Fundação Pró-Defesa Ambiental-FPDA (ONG local) de um cursos de formação realizado, em Carrancas (MG), organizado para 25 alunos de Administração, Agronomia e Engenharia Florestal da UFLA e 40 professores do ensino fundamental dos municípios da região.
A escola selecionada foi o “Núcleo Rural Cajuru do Cervo”, que desenvolveu o “Projeto Sensibilização da Comunidade sobre a Importância da Horta: Diversificação e Enriquecimento da Alimentação”, a partir do curso. Este projeto esbarrou em problemas superados pelo apoio conjunto das instituições parceiras da escola. Segue o relato de seu processo, feito pela Coordenadora do Dep. de Educação da UFLA, Profª Cláudia Ribeiro:
“Eles foram para implantar a horta comunitária, que era o desejo da comunidade e em lá chegando, faltava água. Era uma bomba que estava queimada, ela ia e voltava para a cidade e sempre queimada e os meninos não tinham condição de estar incrementando a horta. Tem um jatobá belíssimo na comunidade, fizeram uma história dele, imprimiram essa história com desenho e texto e entregaram nas casas da comunidade, chamando a população para participar. Marcamos uma reunião com o Prefeito para solicitar dele a resolução do problema da água. Fotografamos o jatobá, ampliamos a fotografia colorida, levamos para o Prefeito e então solicitamos que fosse tombado. Eles tinham um problema sério porque a Fernão Dias está passando por lá perto e eles não tinham a passarela para atravessar, faltava telefone (…) foram junto os elementos da Fundação, o pessoal da comunidade, professor da Unidade Infantil, da Educação Fundamental. Fomos lá com aquela parafernália, com transparência, as fotos da água sendo”. puxada, dos moradores tendo que pagar pela água e a bomba queimada desde fevereiro. O Prefeito disse que não atenderia, que era uma entrevista individual que tinha sido marcada. (…) Ele falou que não daria tempo, porque a equipe era muito grande. É claro que ele viu o peso daquilo. (…) Daí a dois dias ele marcou, voltamos e conseguimos a água, compraram uma bomba nova, o tombamento do jatobá, uma pista para a Fernão Dias e o telefone para a comunidade.” (WWF/Relatório Final de Avaliação, 1999)
Maranhão
A viabilização do Projeto Raimundo na região destaca-se, por envolver diretamente uma empresa, fato pouco comum, àquela época, na história da EA no Brasil. Na região Tocantina, ao sul do Maranhão, a empresa CELMAR-Celulose do Maranhão apoiou seis cursos em 97/98, envolvendo onze municípios na formação em EA e entidades de classe, igrejas, escolas públicas, secretarias municipais, ambientalistas e lideranças. Após três anos de atividades, foi organizado, em Davinópolis/MA, um encontro regional com cerca de 200 pessoas, além de repórteres da TV e órgãos da imprensa local, visando à troca de experiências através dos vídeos “Documentários Raimundos”, feitos a partir dos projetos estruturados nos cursos de formação.
A experiência selecionada foi a da “Escola Comunitária Santa Isabel”, iniciada com 30 crianças da redondeza, debaixo de uma mangueira, no quintal da casa de três irmãos dançarinos. Diante da evasão, os irmãos introduziram no ensino a arte da dança folclórica. Em pouco tempo, a escola cresceu e veio a participar do curso do Projeto Raimundo, por meio de sua diretora Profª Maria Ivoneide Oliveira dos Reis, a “Miúda”, que elaborou o “Projeto Ações para o Desenvolvimento e Grupo de Tradições Folclóricas”. Os seguintes depoimentos falam por si:
“(…) As aulas na Santa Isabel chamavam a atenção, com danças, histórias e muita criatividade. Com o tempo, há necessidade de espaço maior, Miúda recolhe suas economias e consegue adquirir um terreno. Com determinação, apoio da comunidade do bairro e credenciamento da Prefeitura, como uma escola municipalizada, hoje a escola conta com 535 crianças, distribuídas em 02 turnos, o espaço está organizado, com mais salas, um pequeno refeitório. O Grupo de Tradições Folclóricas tem feito várias apresentações, inclusive fora do município. (…), Atualmente a Escola pretende se transformar em Instituição Cultural, através da captação de recursos junto ao MEC (IBEA/Informativo Rodamundo, 1999:8)”.
“Tem diretor de outras escolas que acha que aqui tem festança demais”, “Mas só o quadro e giz não motivam ninguém. Hoje, muitas mães pedem para eu arrumar um lugar na minha escola senão as crianças não querem estudar”, “antes do Raimundo, eu não sabia o que era um projeto”, “Eu me considero a Marieta do livro” (Miúda). (IBEA/Relatório Núcleo Maranhão, 1999:6).
DF/BR e Goiás
Ações junto aos trabalhadores rurais representam a diversificação que o Projeto Raimundo atingiu com seus objetivos de promover uma educação diferenciada e de acordo com a realidade local. No caso, trata-se da experiência do Assentamento Terra Conquistada, localizado no município de Água Fria.
As atividades foram definidas a partir de um amplo diagnóstico, realizado, em 1997, pelo Grupo PET – Educação da UnB, com vistas à formação em EA em parceria com o Instituto Brasil. No Assentamento, ocorreram dois cursos, um orientado para “A organização coletiva da produção e a introdução de técnicas sustentáveis de usos dos recursos” e outro dirigido para a discussão de “Questões familiares e de cidadania”. De posse das informações dos cursos os participantes criaram experiências-piloto em suas terras, que foram acompanhadas pelas equipes parceiras.
Alguns dos depoimentos:
“Aprendi sobre a reposição dos nutrientes pelos matérias orgânicos dispensando os produtos químicos e a necessidade de conservar a água na terra e o plantio de árvores nativas. A partir de agora eu vou usar todos os recursos naturais que aprendi neste curso”;
“Trator na minha chácara não entra mais para que não venha estragar as rebrotas. Vou trabalhar com os canteiros instantâneos”;
“Eu queria fazer o canteiro instantâneo e não arar a terra. Fazer as zonas e tudo o que aprendi como o círculo de bananeiras que infiltram água e formam área verde”;
“Com esse curso maravilhoso minha vida facilitou. Vou ter sempre uma horta na minha casa sem precisar gastar dinheiro com adubo. Pois o curso para mim ensinou a ter adubo sem química. Agora vou usar sempre o adubo orgânico”;
“A partir do que estou aprendendo neste curso, eu estou disposto a mudar toda a técnica de plantar todos os tipos de plantio, inclusive hortaliças e frutíferas”.(IBEA,Relatório Centro-Oeste, 2000).
Rio de Janeiro
O Projeto Raimundo abrangeu quatro municípios: Angra dos Reis, Itatiaia, Resende e Rio de Janeiro (Zona Oeste). Resende foi objeto desse estudo. O Projeto estableceu parcerias com as Secretarias Municipais de Educação (SME) e de Meio Ambiente (SMMA), com a ONG Crescente Fértil e o Grupo de Teatro de Bonecos “Trupeça + Vai”, que elaborou a peça infantil “Raimundo e Marieta salvam o Planeta”, inspirada no livro Muda o Mundo, Raimundo! A “Escola Municipal Visconde de Mauá” (Resende/RJ/Serra da Mantiqueira), destacou-se porque se abriu para a comunidade e o “Mundo”, pelo empenho da profª Rosângela Vieira, participante do curso de formação.
Seu projeto, “A Valorização das Relações Interpessoais Através de Atividades de EA”, teve por objetivo criar uma Rede de Escolas em Mauá e gerou uma série de desdobramentos, inclusive a estruturação de uma Coordenação Pedagógica na SME/Resende. Ao assumir o cargo, a professora inseriu a EA na proposta pedagógica das escolas. Mais tarde, transferida para a SMMA/Resende realizou seminários técnicos sobre meio ambiente e criou o Centro de Referência em EA de Resende-CREAR e fomentou a rede de Escolas da região.
Pelo CREAR, ela fez parte do acordo de cooperação técnica Brasil/Alemanha, para desenvolvimento do Programa da APA (Área de Proteção Ambiental) da Serra da Mantiqueira. Pautado na “Agenda 21”, o Programa visa, em longo prazo, a sustentabilidade da ocupação e do uso econômico da APA e, em curto prazo, ações conjuntas na promoção da EA e do ecoturismo, integrando as escolas na discussão sobre o zoneamento ecológico-econômico da APA. No planejamento houve a troca de experiências entre as escolas da Mantiqueira e as de Ostfriesland (Alemanha).
Professores de Mauá foram a Ostfriesland apresentar seus projetos e aqui receberam professores alemães.
A seguir os indicadores de mudança verificados nos projetos locais (ARRUDA, 2001:156):
Indicadores político-institucionais:
- Mobilização de prefeituras, empresas, ONGs, universidades e outras instituições como parceiras por meio do estabelecimento de Convênios ou Termos de Compromisso.
- Viabilização de apoio para o desenvolvimento das atividades e resolução de situações-problemas.
- Inserção da educação ambiental nas políticas públicas.
- Integração das instituições parceiras.
- Divulgação dos projetos/ações locais de EA nos meio de comunicação.
- Melhorias nos serviços de infra-estrutura (sistemas de abastecimento de água, passarela, telefone, coleta regular do lixo, construção de escola etc).
- Sensibilização dos gestores para as questões socioambientais.
- Criação de setores de meio ambiente e de educação ambiental em órgãos públicos.
Indicadores de organização social:
- Identificação de lideranças: técnicas, gestoras e comunitárias.
- Estabelecimento de rede de comunicação e troca de experiências entre profissionais e projetos.
- Inserção de representantes em fóruns de participação social como, Sindicatos, Agenda 21 Local e Comitês de Bacias Hidrográficas.
- Realização conjunta dos estudos do meio ou diagnósticos.
- Mobilização de comunidades.
- Produção de materiais de mobilização.
- Utilização de metodologias e de planejamento participativo.
- Criação de conselhos paritários escola/comunidade.
- Organização de eventos inseridos nas questões priorizadas: festas, debates, passeatas, encontros, passeios.
Indicadores educacionais:
- Formação das equipes técnicas das instituições parceiras por meio de um processo educativo prático, que acontece durante todo o decorrer do Projeto
- (planejamento, docência, acompanhamento e avaliação dos cursos e seus desdobramentos locais).
- Experiência de educadores, gestores ambientais e lideranças comunitárias com um processo coletivo de reflexão, construção de conhecimentos a partir da realidade local.
- Motivação para realizar o estudo do meio ou diagnóstico observando as questões socioambientais relacionadas à realidade escola/comunidade/município/região, fazendo levantamento de dados e pesquisas.
- Educadores orientados para a elaboração das propostas pedagógicas das escolas de acordo com as diretrizes das SME e os princípios da EA.
- Aplicação da abordagem interdisciplinar, dado o caráter multidisciplinar do meio ambiente, no estudo do meio ou diagnóstico e na proposta pedagógica das escolas.
- Estabelecimento de novas formas de ensino e acesso a diferentes materiais educativos e estratégias metodológicas.
- Estabelecimento de fóruns participativos nas escolas com alunos, pais e funcionários.
- Resgate das tradições culturais e respeito à diversidade.
- Integração com profissionais e experiências de outros municípios e regiões, por meio de rede.
- Reconhecimento e ascensão profissional.
- Melhoria das relações interpessoais, rendimento escolar, espaço e infraestrutura.
- Abertura da escola para a comunidade e diminuição da evasão escolar.
CONCLUSÃO
As experiências desenvolvidas permitiram a análise dos princípios do Projeto Raimundo a partir dos conceitos complementares de educação e sustentabilidade. Ao explicitar a necessidade de intervenção na educação pública brasileira e fundamentar-se numa proposta pedagógica progressista, como a pedagogia de Paulo Freire, o Projeto inseriu-se nacionalmente, em época que a EA ainda não havia se constituído como política pública.
Situa a problemática da educação em seu contexto histórico-cultural e aponta-a como indicativa de não-sustentabilidade e campo de atuação para se promover mudanças. Sua metodologia participativa (dialógica) forma cidadãos conscientes, de seu papel social, e críticos da realidade. O estudo do meio ou diagnóstico sensibiliza e promove a prática da interdisciplinaridade, a partir da qual ocorre a troca de experiências e de saberes e a oportunidade de priorizar o que encontram na realidade e de definir seus projetos locais. Permite ainda o exercício da tomada de decisões coletivas sobre os estados de não-sustentabilidade, possibilitando compartilhar a mudança e a melhoria da qualidade de vida (estado de mais sustentabilidade) demandada pelas situaçõesproblemas.
Ao inserir a EA na prática cotidiana dos professores, gestores e lideranças, o Projeto a incorpora aos princípios e às propostas pedagógicas das escolas. Essa prática apoia o governo para assumi-la oficialmente, incentiva o estabelecimento de parcerias interinstitucionais e reconhece a importância da diversidade cultural, da justiça social e a manutenção da biodiversidade como metas socioambientais de convivência (estados de mais sustentabilidade). Proporciona um campo de participação cidadã, identifica e mobiliza lideranças, instituições e movimentos sociais atuantes em nível local. Muitos de seus projetos locais acabam por influenciar as políticas públicas.
Em Minas Gerais, p. e., o que caracterizou a ação da “Escola Cajuru do Cervo” foi a força da parceira entre a Universidade Federal de Lavras, a Fundação Pró-Defesa Ambiental (ONG), que integradas com as escolas, viabilizaram o projeto e conseguiram aproximar a prefeitura, para resolução dos problemas da comunidade. No Maranhão, o projeto da “Escola Santa Isabel” caracterizou-se pela iniciativa da liderança comunitária, mais tarde professora/diretora que transformou a escola, conquistando novo espaço, infra-estrutura e sua oficialização como escola municipalizada. Também inovou na proposta pedagógica, ao utilizar brincadeiras e cantigas das danças folclóricas regionais, chegando a criar um grupo de dança reconhecido regionalmente por suas presentações e troca de experiências, inclusive com os índios da região.
No Rio de Janeiro, o projeto da “Escola Municipal Visconde de Mauá”, destacou-se pela iniciativa e comprometimento da professora, que se tornou liderança no plano governamental. Estabeleceu uma rede de escolas e assumiu o cargo de coordenação pedagógica, até então inexistente, na SME de Resende.
Transferindo-se para a SMMA criou o Centro de Referência em EA de Resende e participou do intercâmbio entre as escolas locais e as de Otsfriesland (Alemanha), no âmbito do Programa Mantiqueira de Cooperação Técnica Brasil/ Alemanha.
Algumas experiências esbarram em problemas relativos à escola enquanto instituição governamental, sujeita a mudanças de gestão e a transferências de profissionais, assim como, a falta de recursos materiais e humanos e as precárias condições de funcionamento. Por outro lado, muitas parcerias também não chegam a acontecer na prática, mas apenas no papel. De qualquer modo, as escolas que mudam têm conseguido influenciar outras gerando um grande avanço. Vale ressaltar que, um projeto de EA geralmente enfrenta mais dificuldades do que avanços, dadas às circunstâncias da educação pública brasileira.
Os projetos de EA devidamente fundamentados, teórica e metodologicamente, são quase sempre aqueles que conseguem estabelecer uma mudança de categorias de permanência e preservação para categorias de mudança e transformação social, pelo fato de interferirem na relação, educação–escola–comunidade. Três aspectos interdependentes e verdadeiros “canteiros” de desenvolvimento local.
BIBLIOGRAFIA CITADA
ARRUDA, Mônica Penna. S. de. Educação e Sustentabilidade: o Projeto Educação Ambiental no Ensino Básico do Brasil, Muda o Mundo, Raimundo!, Dissertação de Mestrado, Orientação Profª Drª Tânia M. de Freitas Barros Maciel, Programa EICOS/IP/UFRJ, RJ (RJ), 2001.
BECKER, Egon, JAHN, Thomas, STIESS, Immanuel, WEHLING, Peter. Sustainability: A Cross-disciplinary Concept for Social Transformations. Policy Papers, MOST – Management of Social Transformations-UNESCO, n. º 6, 1997.
BRÜGGER, Paula. Educação ou Adestramento Ambiental? Coleção Teses, Ilha de Santa Catarina: Letras Contemporâneas, 1994. 141 p.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 4ª ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1977. 220 p. (O Mundo Hoje, v.21).
INSTITUTO BRASIL DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL-MOVIMENTO RAIMUNDO, Plano de Desenvolvimento Institucional, junho1998, Rio de Janeiro, RJ. 25 p.
KLAUSMEYER, Alfons & RAMALHO, Luis (org). Introdução a Metodologias Participativas-um guia prático. Recife. SACTES/DED e ABONG Série Metodologias Participativas, 1995.
LOUREIRO, Carlos Frederico B.; LAYRARGUES, Philippe Pomier; CASTRO, Ronaldo de Souza (Org.). Sociedade e meio ambiente: a educação ambiental em debate. São Paulo: Cortez, 2000.
MACIEL, Tania. “Questões Atuais da Ecologia Social”. In: BONFIM, Elizabeth de Melo (Org.). Psicologia Social: Horizontes Contemporâneos, Belo Horizonte: ABRAPSO, 1999. p. 18-24
REIGOTA, Marcos. A floresta e a escola: por uma educação ambiental pósmoderna. São Paulo: Cortez, 1999. 167 p.
RODRIGUES, Vera Regina (Coord.). Muda o Mundo, Raimundo!: educação ambiental no ensino básico do Brasil. Brasília: WWF, 1997.188p. il.color.
SACHS, Ignacy. Estratégias de Transição para o Século XXI-Desenvolvimento e Meio Ambiente. Tradução de Magda Lopes. São Paulo: Studio Nobel: Fundação do Desenvolvimento administrativo – (Cidade Aberta), 1993. 103 p.
TEISSERENC, Pierre. Les Politiques de Developpement Local. Approche sociologique. Collections Collectivités Territoriales. Paris, 1994.
THIOLLENT, Michel. Metodologia da Pesquisa-Ação, 8ªed. São Paulo: Cortez Editora, 1998.
WWF, Fundo Mundial para a Natureza. Relatório Final. Avaliação do Projeto de Educação Ambiental. Rio de Janeiro: WWF/Brasil, 1999.
AUTORES
- MÔNICA PENNA S. DE ARRUDA
Rua São Clemente 261/ 604, Botafogo, Cep:22260-001 Rio de Janeiro/RJ
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4 Comentários para “Muda o Mundo Raimundo! Um projeto capaz de promover mudanças na escola e na comunidade”
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21:26 em 08/05/2008
Mais legal do que o projeto, é o nome dele.
20:18 em 11/07/2008
Só tenho dizer para esta Escola Sta Isabe parabens.
08:22 em 18/11/2008
gostei muito de ler os seus comentarios sao muito interesantes e digino para quen gosta de uma boa historia en seus minimos detalhes obs;voce esta de parabens obrigado pela historia !!!!!!!!!!!!!!!! tial
ass:francisco das chagas.
aluno da escola santa isabel en davinópolis-ma
08:27 em 18/11/2008
obrigado pelo texto!!!!!!!!!!!!!!