EDUCAÇÃO AMBIENTAL: uma concepção mais ampla da educação

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Pesquisas realizadas pela autora apontam para a importância das mudanças radicais introduzidas pela Educação Ambiental nas finalidades da educação. A educação necessária para a existência de uma sociedade justa em um ambiente ecologicamente sustentável tem por finalidade tornar o ser humano consciente das conseqüências das práticas histórico-sociais da humanidade. O conhecimento e a reflexão crítica sobre a sociedade tecnológica apontam para as limitações humanas na solução dos problemas surgidos ao desenvolver uma civilização que só leva em conta os aspectos culturais. O estudo do processo educacional em escolas públicas cariocas pode encontrar princípios éticos da Educação Ambiental. Seu currículo observado era coerente com a proposta do trabalho científico sob paradigmas que enfrentam o fim das certezas, que trabalham o seu ambiente em sua complexidade. Nessas escolas dos primeiros ciclos, havia um agir comunicativo e o estabelecimento de uma rede de relações que otimizou e expandiu o espaço escolar. Concluiu-se que as escolas que conseguem superar os problemas historicamente determinados, estabelecendo adequadas relações internas e externas e trabalhando com as dimensões humanas até seus campos éticos, estéticos e transcendentais, tornam-se saudáveis ambientes educativos.

INTRODUÇÃO

Algumas pesquisas que tenho realizado (VASCONCELLOS, 1996, 1998, 1999 e 2002) apontam para a importância das mudanças radicais que a Educação Ambiental (EA) traz, ao rever as finalidades da Educação. Antes de apresentar sucintamente os resultados do que tenho estudado queria explicar porque considero que a EA é uma concepção mais ampla de educação.

LEFF (1999) sintetiza a fundamentação da EA em 2 princípios básicos:

Na realidade, na expressão Educação Ambiental, seu qualificativo apenas aponta para a sua finalidade inovadora: tornar o ser humano consciente das conseqüências de sua atividade cultural. Neste início do século XXI está mais viva do que nunca a questão: para que vivemos? O que poderia gerar a pergunta subseqüente: para que educamos? É evidente que a busca do esclarecimento sobre o sentido da vida humana só pode existir com a permanência dessa vida. A possibilidade da ameaça à permanência da espécie a que pertencemos, como conseqüência da prática histórico-social que vimos desenvolvendo até o século XX, configura-se tema relevante para reflexões no campo das finalidades da Educação.

Aceita-se, aqui, o pressuposto de que a existência/essência humana é fundamentalmente uma prática” (SEVERINO, 1993,p. 13). Mas, essa prática históricosocial (que inclui os universos do trabalho, da sociabilidade e da cultura) existe a partir de uma base de matéria e energia inerente ao ser vivo que é o ser humano, no ambiente terrestre, do qual ele permanece totalmente dependente. Esta é uma inovação importante: a visão da Educação, além da cultura específica, propondo a formação de uma consciência planetária, em um cidadão planetário.

O reconhecimento do ser humano como um dos seres terrestres aguça a visão crítica para os rumos da nossa sociedade de consumo, baseada nos, assim chamados, avanços científico-tecnológicos.

Aqueles que só podem admitir o avanço científico-tecnológico relacionado ao aprimoramento das condições de vida humana, recusam-se a aceitar que a ciência possa fazer involuir essas condições e, em conseqüência, não admitem limites para a prática científica. Temem o retorno ao obscurantismo, diante de restrições, demonstrando assim sua crença de que à verdade se chegará através da ciência experimental. Por esse pensamento, os problemas ambientais criados pelos produtos da civilização contemporânea, seriam solucionados pelos novos produtos resultantes da própria evolução da ciência e da tecnologia. O conceito de desenvolvimento sustentável, muitas vezes, tem sido entendido como expressando essa posição (COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1985).

Podemos seguir desperdiçando e destruindo, mas garantiremos, através da ciência e da tecnologia, os bens necessários aos nossos descendentes. Creio não estar sendo demasiadamente severa com um relatório que declara, desde o seu início, vislumbrar uma nova era de crescimento econômico que tem que se apoiar em práticas que conservem e expandam a base de recursos materiais (Ibidem, p.1). Será possível expandir os recursos não renováveis deste nosso planeta? ADORNO (1995) apontava para a necessidade de se educar contra a barbárie, porque via as pessoas tomadas por um agressividade primitiva ao lado do mais alto desenvolvimento tecnológico. A sociedade de consumo tende a super-valorizar o novo que antes de ser totalmente consumido é descartado, assim sendo considerados: os objetos construídos, mas também a natureza humana e não humana, as relações sociais e os próprios sentimentos humanos.

A EA procura conhecer e refletir criticamente sobre a sociedade tecnológica.

Está subjacente, quando se mantém o entendimento de ser possível manter o desenvolvimento linear ascendente da modernidade, a crença de que o conhecimento das leis imutáveis da natureza permitirá ao homem recriar tudo que ele desejar quando o planeta Terra já se tiver esgotado. Parece-me que esse é um pensamento coerente com o da equivalência entre passado e futuro, aceita pela Física newtoniana, Mas, não é essa a discussão posta na Física atual.

PRIGOGINE (1996), ao discutir a irreversibilidade do tempo, presente desde processos simples como a difusão, o atrito e a viscosidade, até a formação dos turbilhões e das oscilações químicas ou da radiação laser, aponta para o surgimento da Física do não-equilíbrio, como uma nova ciência. Essa ciência, diz ele: levou a conceitos novos, como a auto-organização e as estruturas dissipativas, que são hoje amplamente utilizados em áreas que vão da cosmologia até à ecologia e às ciências sociais, passando pela química e a biologia (PRIGOGINE, 1996, p. 11).

Noções como a de caos tornaram-se populares. O muito pequeno (submicroscópico) e o muito grande (que originou a cosmologia) puderam ser estudados pela Física nas últimas décadas e trouxeram o fim das certezas preditivas. Isso ocorreu através do avanço do próprio campo científico-tecnológico.

É ainda Prigogine quem afirma que sem a coerência dos processos irreversíveis de não-equilíbrio, o aparecimento da vida na Terra seria inconcebível (Ibidem, p.12).

Estamos tratando, então, com algo (a vida) formado de maneira não previsível e irreversível no tempo.

Até aqui, concluímos que as citadas novas proposições restringem a possibilidade da previsão, para o ser humano, dos efeitos desse incessante “aperfeiçoamento” das descobertas científicas. Sendo assim, a especificidade do planeta Terra, no cosmos, nos alerta para o acerto da “nova aliança” de que fala PRIGOGINE e STENGERS (1984).

Como conseqüência, consideramos que a importância das limitações humanas para a manipulação do espaço físico traz para a Educação, na busca da clareza dos seus fins, novas indagações.

A EA trabalha com novos paradigmas da ciência.

Sintetizando uma indagação de MORIN(1979, p.22): como explicar o ser humano que vive na cultura, tendo em si a natureza, com base numa teoria histórico/social que só se refere a seu aspecto antinatural ? Morin mesmo responde: rompendo-se as barreiras entre o físico-químico, a vida-natureza e o homem-cultura. Mais adiante, em suas reflexões, ele identifica o surgimento do ser humano sapiens, não na sociedade, nem na técnica, na lógica ou na cultura, já alcançados pelos seus antecessores socius, faber e loquens, mas o homo sapiens, como último representante dos hominídeos, se identifica pela sepultura de seus mortos e pela pintura com que representa o seu pensamento. A sepultura, tal como é feita, o corpo em posição fetal como a espera de um novo nascimento, sugere a sobrevivência do morto (…) a morte é concebida como transformação de um estado a outro estado (Ibiden, p. 102). As suas pinturas contém uma potencialidade estética e parecem estar ligadas a crenças mitológicas e a operações rituais.

Como será possível educar o novo ser sem propiciar o desenvolvimento da espiritualidade e da apreciação estética ? O caminho para a evolução da consciência moral entre os jovens não passará pela revalorização, no processo educativo, dessas experiências (espiritual e estética) desde o campo pessoal ao social, nos educandos ? O intelectual e o moral poderão seguir evoluções paralelas em elipses ascensionais, a partir de acordos entre o bem e o belo que incluam toda a Terra?

A EA retoma a importância da ética.

No campo da evolução da consciência intelectual, é importante começar observando a natureza que existe em nós pela energia, pelas partículas subatômicas, o átomo e as moléculas. A arrogância do humanismo é derrubada pela universalidade da substância genética e dos mecanismos da formação e manutenção de nosso organismo.

Somos construídos pelo mesmo processo usado nos mais simples seres vivos e por isso várias de nossas funções podem ser executadas por eles. A reflexão sobre as conseqüências das manipulações irresponsáveis com o material genético a partir da década de 1970 faz ressurgirem os estudos sobre a filosofia prática, ou seja, sobre a ética. Não é por acaso que o campo da biologia é onde as preocupações com o bem universal e com a definição dos limites para as ações humanas vão surgir mais fortemente. Da expressão do século XIX, “deontologia médica”, fundada no juramento de Hipócrates, ou seja, na definição do que é obrigatório na ciência biológica aplicada à cura e prevenção das doenças, passou-se à bioética, com propostas de maior abrangência.

A palavra bioética, de uso bastante recente, apareceu em um artigo intitulado “A ciência da sobrevivência”, já nos anos 1970 (POTTER, 1971,apud SGRECCIA, 1996). O pensamento bioético, desde o momento de sua criação, vai-se ocupar da biosfera, ampliando a percepção filosófica com a concepção holística da vida, embora suas raízes estivessem na rejeição às experimentações praticadas em seres humanos, iniciadas – mas não terminadas – com o nazismo.

O principal fundamento da EA, apropriando-se dos avanços dos diferentes campos da ciência, desde as experimentais às sociais, terá por base a valorização do ser terrestre em si, reconhecendo o ser humano como dependente do conjunto que lhe permitiu surgir em um determinado tempo e espaço. A Educação será então o processo social de desenvolvimento do ser humano voltado para a sua sobrevivência. No entanto, seria um retrocesso essa proposta, se apenas nos contentássemos em viver. A EA enfatiza a participação do ser humano no campo ético-político, sob o que GUATTARI chama de três registros ecológicos: o do meio ambiente, o das relações sociais e o da subjetividade humana (GUATTARI, 1991, p. 8).

Uma Educação assim compreendida exige as informações necessárias para que cada um conheça a complexidade daquilo que o circunda de modo ativo e participante, a fim de preservar o que é necessário e mudar o que prejudica uma boa qualidade de vida. Compreendendo a interdependência dos seres, a ênfase da cooperação sobre a competição surge como prática social. Se a origem comum da vida na Terra é apontada, valoriza-se também a importância da diversidade, tanto biológica quanto cultural. Os limites, que o nosso planeta (único reconhecido pela ciência atual como compatível com a vida humana) estabelece para o nosso comportamento, implicam mudanças políticas importantes tanto para pequenos quanto para médios grupos e para toda a humanidade. É uma educação para a tolerância religiosa, para o retorno às grandes questões filosóficas sobre os princípios e os fins, ao mesmo tempo que se utiliza dos múltiplos produtos e da vertiginosa rede de comunicação surgida neste final de século. Retoma a questão ética, portanto dos valores universais, mas reconhece a riqueza do multiculturalismo e da biodiversidade para a humanidade e para o planeta.

É a educação do contrato natural proposto por SERRES (1991) ,estabelecido de um modo novo, ainda não experimentado. É a educação que enfrenta o fim das certezas, e que propõe uma nova racionalidade (PRIGOGINE, 1996). Se estamos, conforme as novas teorias da física, em um mundo onde há uma irreversibilidade do tempo e em um estado de não-equilíbrio que possibilita novas construções, é das flutuações e da instabilidade que podemos construir algo que consideramos possível. Porque não há determinismo, não se podem estabelecer leis de causalidade, a não ser em casos restritos. Decididamente, a complexidade do processo educacional, não nos admite incluí-lo dentre os casos restritos em que a ordem e a estabilidade permitem estabelecer a previsibilidade dos fatos. O conceito de educação com que trabalhamos não permite senão que consideremos que a educação como promotora de uma vida humana de qualidade é possível. Nessa VIDA de qualidade há uma alternância de equilíbrio/ não-equilíbrio físico, mental e social. Mais ainda, não há determinismo, o que, segundo POPPER é o obstáculo mais sólido e mais sério no caminho de uma explicação e de uma apologia da liberdade, da criatividade e da responsabilidade humanas (1982,p. XVI, apud PRIGOGINE, 1996, p.21).

A EA é uma prática pedagógica saudável

Como dissemos no início deste texto, realizamos pesquisas naturalísticas (ANDRÉ, 1995) em escolas em que identificamos um esforço na direção de uma EA. Qual foi a singularidade que encontramos no ambiente natural e social de duas escolas dentre as que pudemos estudar?

O agir comunicativo (HABERMAS, 1989) das administradoras e das professoras parece ser a chave da qualidade das escolas a que nos referimos.

Elas entraram em acordo quanto à verdade, à correção e à sinceridade, nas reuniões e nos planejamentos, e mantêm comportamentos consistentes à conduta moral definida dentro da escola. Isto lhes dá o ânimo, otimiza a utilização dos recursos disponíveis e dos recursos políticos do sistema de ensino carioca.

Enxergamos a educação dessas escolas como ambiental pelas seguintes características: trabalha com a realidade do seu ambiente; leva os alunos a considerarem o meio em sua totalidade (natural, mental e social); essa visão de mundo é desenvolvida na escola sem distinção entre as séries (é contínua); os estudos são interdisciplinares, sob uma perspectiva global; há preocupação com as conseqüências da atuação da civilização moderna sobre o ambiente que é trabalhado de modo local, regional e planetário; desenvolvem o censo crítico e a auto-estima considerando a possibilidade de todos adquirirem as habilidades necessárias para resolver os problemas; e, finalmente, são escolas que usam diferentes ambientes físicos para educar, propiciados pela abertura aos grupos “de fora” (organizações governamentais, não governamentais e empresas, além de pessoas voluntárias).

Confrontando os diversos tipos de dados coletados (históricos, factuais e de discurso) concluímos que as escolas que conseguem superar os problemas
historicamente determinados são as que criam condições, dentro do contexto em que vivem, para se tornarem saudáveis ambientes educativos.

Não pretendo generalizar os resultados dos estudos que aqui foram descritos.

Essas escolas mostram apenas que é possível e agradável educar ambientalmente. Elas, durante o tempo que as acompanhamos (1995 – 2002), se destacaram pelo baixo índice de evasão e alto índice de aprovação dos seus alunos, no sistema de ensino público municipal carioca.

Se uma EA é uma utopia para transformar nossa civilização, acredito que vale o esforço de tentarmos esse novo caminho.

Nunca, como agora, precisamos tanto de entusiasmo e de fé em que é possível a educação contribuir para uma humanidade mais feliz, em nossa pátria brasileira e no nosso planeta azul. Que assim seja!

BIBLIOGRAFIA CITADA

ANDRÉ, Marli E.D.A. Avanços no conhecimento etnográfico da escola. In: Ivani

FAZENDA(Org.). A pesquisa em educação e as transformações do conhecimento. Campinas: Papirus,1995.

COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Nosso futuro comum. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas,1991.

GUATTARI, Félix. As três ecologias. Campinas: Papirus, 1991.

HABERMAS, Jurgen. Consciência moral e ação comunicativa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.

MORIN, Edgar. O enigma do homem: para uma nova antropologia. 2ª Edição.Rio de Janeiro: Zahar , 1979.

POPPER, Karl. L’univers irrésolu. London: Hutchinson, 1982.

POTTER, V.R. Bioethics: bridge to the future. Engkwood Cliffs: Prentice Hall, 1971.

PRIGOGINE, Ilya & STENGERS, Isabelle. A nova aliança. Brasília: Universidade de Brasília, 1984.

LEFF, Enrique. Educação ambiental e desenvolvimento sustentável. In: Marcos

REIGOTA(Org.) Verde cotidiano: o meio ambiente em discussão. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.

SERRES, Michel. O Contrato natural. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.

SEVERINO, Antonio J. Proposta de um universo temático para a investigação em Filosofia da Educação: as implicações da historicidade. Perspectiva: revista do Centro de Ciências da Educação. Universidade Federal de Santa Catarina. 19, 1993.

SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética. Vol. I- Fundamentos e ética biomédica. São Paulo: Loyola, 1996.

VASCONCELLOS, Hedy S. R. de. Educação e saúde no Município do Rio de Janeiro: proposta e realidade. Relatório de Projeto Integrado. CNPq/PUC-RIO, 1996

AUTORES

Departamento de Educação – PUC/RJ, Rua Marquês de São Vicente, 225. CEP22451-041, Gávea – Rio de Janeiro/RJ

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